Entrevista Marcelo Banana, da banda Canamaré (RJ), que toca sexta-feira (21) em Porto Alegre

Crédito: Homero Pivotto Jr.

O grupo, que tem forte ligação com Porto Alegre desde o fim dos anos 1990, toca na cidade nesta sexta-feira (21), noSub Club Cultural (Joaquim Nabuco, 288), celebrando seus 21 anos de trajetória.

Ingressos disponíveis neste link

Reggae sem fronteiras — Entrevista com Marcelo Banana, da banda Canamaré (RJ)

Réveillon na Praia do Rosa e Carnaval em Garopaba: rotina comum para catarinenses nativos ou gaúchos que não abrem mão de curtir o litoral no estado vizinho. Mas esse também foi o trajeto que abriu caminhos para a banda de reggae Canamaré, de Niterói (RJ), se tornar tão próxima do público que vive no Sul do país. E essa boa relação já dura quase duas décadas — praticamente o tempo de existência do próprio conjunto fluminense. Agora, com 21 anos de boas vibrações passadas por meio da música, o grupo retorna a capital do Rio Grande do Sul para celebrar a amizade e o acolhimento que encontrou por aqui. E a comemoração, coincidentemente, rola em uma data que tem a ver com a idade da banda: 21, no caso, do corrente mês de setembro. O show ocorre no Sub Club Cultural (Rua Joaquim Nabuco, 288), às 22h, e inclui também os locais da Fell Jah antes da atração principal.

A Canamaré foi criada em 1997 e, em 1999, resolveu navegar por mares distantes de casa. Veio, então, para uma temporada pelas praias de Santa Catarina e, em seguida, para um sequência de eventos em Porto Alegre. O resultado foi tão positivo que o conjunto adotou a cidade gaúcha como porto seguro longe do próprio lar. Conversamos com o vocalista Marcelo Banana, integrante da formação original, sobre essa parceria com a gauchada, a história da Canamaré e o momento atual do reggae no Brasil.

A Canamaré, apesar de ser de Niterói, tem uma ligação forte com o pessoal do sul. Como rolou essa aproximação?

Marcelo Banana — Em dezembro de 1999, nós lançamos nosso primeiro CD (que leva o nome da banda), independente, em Niterói. Era esperado já na nossa cidade esse material, foi um grande sucesso. E, na sequência, a gente apostou em uma viagem, custeada pelo nosso próprio dinheiro, para a Praia do Rosa (SC). Chegamos lá dia 28 de dezembro e conseguimos, acreditamos mesmo, e tocamos na noite do réveillon no Rosa Sul, que é uma festa tradicional. Tinha milhares de pessoas e esse foi o cartão de visitas da Canamaré: Praia do Rosa, Santa Catarina, na virada do milênio. A partir daí, dia 4 de janeiro a gente abriu para a Tribo de Jah em Garopaba, num evento da prefeitura, para 15 mil pessoas. Praia, evento gratuito… aí a coisa aconteceu e tocamos em todo o litoral catarinense durante o verão. Na sequência do Carnaval já fomos para Porto Alegre, fizemos alguns shows, fomos em rádios e tal. Foi como rolou essa aproximação: uma aposta nossa, e o povo gaúcho estava em uma época de um mercado muito efervescente de bandas independentes e autorais, principalmente do movimento reggae. Fomos abraçados pelos povos catarinense e gaúcho, somos muito gratos! É uma relação muito especial que temos já de longa data. Somos uma banda autoral e o público nos levou a algum lugar. De show a show, vendendo CDs nas apresentações e correndo atrás de cada espaço.

É clichê, mas vamos lá: o que vocês pensaram que iria acontecer com o futuro da banda logo que se juntaram para tocar? E hoje, olhando para trás, como é analisar esse pensamento que tiveram naquela época?

Marcelo Banana— Quando começamos a tocar a gente não tinha pretensão alguma. A motivação era simplesmente tocar música reggae, um ritmo que nos envolvia a todos e nos contagiava. Aí, a coisa acontece por si só, o tempo se encarrega. Nas apresentações, o público começou a dar um retorno muito legal e a coisa foi se tornando séria descompromissadamente. A gente acredita muito nessa questão do tempo. Tem até uma passagem da faixa ‘O Trem da Babilônia’, do Canamaré, que diz: “o tempo é o senhor de toda a existência”. E hoje, olhando para o passado, eu percebo que o caminho que percorremos não foi diferente de tantas bandas que começaram sem pretensão. Bandas de colégio, de jovens, de adultos… Enfim. Algo que toma proporção, ganha visibilidade e se torna um trabalho.

No fim dos 1990 rolaram várias bandas gaúchas que ganharam visibilidade nacional. Conheciam essa turma? Trocavam figurinhas?

Marcelo Banana — Tivemos contato, sim. Alguma coisa chegava para a gente. Na época, não era tão fácil assim conhecer trabalhos de outros estados, pois não tocavam em rádios de programação nacional. Mas nomes como Cachorro Grande, Papas da Língua e Ultramen, da qual sou muito fã, eu já conhecia. Mas passei a ter mais contato nos anos 2000, quando começamos realmente a tocar no Rio Grande do Sul, a participar de eventos de rádio com outras bandas. Pelas pistas de skate da cidade — curtia muito dar um rolê no Parque Marinha. E depois trocamos mais figurinha com os grupos de reggae que a gente conheceu e ficou amigo. Tipo a Produto Nacional — Paulo Dionísio, grande irmão, assim como todos da banda — e Pure Feeling também. Eles inclusive vieram tocar com a gente em Niterói, em um evento com as três bandas.

Muita gente reclama que é jogo duro viver de rock no Brasil. E de reggae, é viável? Aliás, é a música que paga as contas de vocês ou geral tem outro trampo?

Marcelo Banana— A vida do artista — do rock, do reggae, do samba — é incerta e há oscilações na carreira. Tem épocas em que se vive bem, outras em que não, que não basta. Essa questão de ter outro trampo para conseguir levar adiante é supernormal aqui no Brasil. A não ser as bandas que já tem uma visibilidade, um volume de trabalho maior, que possibilite se manter. Não é fácil, varia todo mês, não temos essa garantia. Às vezes se está em um bom momento, fazendo vários shows — que é o que dá maior retorno, o ao vivo —, e tem essa questão das plataformas digitais. Mas muita gente está conseguindo viver de música, a gente está vendo isso.

Qual tua avaliação do cenário reggae nacional atualmente?

Marcelo Banana — O cenário reggae nacional, hoje, acho muito favorável. Houve uma crescente muito expressiva. Tenho visto muitos trabalhos com identidade boa. Durante muito tempo vi tudo muito parecido, mas hoje há bastante personalidade. Propostas e sonoridades bem específicas, diferentes. Tenho gostado muito do que vejo e penso que a cena está bem propícia e crescendo. Da parte de criação musical, passando pela artística e show business. Espero que o lado comercial acompanhe para seguir em evolução.

E essa reunião com 3 integrantes originais da Canamaré, foi muito difícil de afinar? Os shows da tour de 21 anos são diferenciados? Caso sim, em que sentido?

Marcelo Banana — São 21 anos de banda. Essa reunião com os três integrantes — eu (Marcelo Banana, vocal), Maurus Maciel (baixo) e o Zeco Passos (guitarra) —, na verdade foi muito fácil para gente. Isso porque nós, da formação original de seis integrantes — já tocamos com nove músicos, incluindo os contratados de sopro, naipe de metais e teclado… Enfim, a gente sempre teve uma sintonia musical muito grande. De concepção, de caminho, de sonoridade, de o que a gente queria. A questão da sonoridade, com menos integrantes, tem de ter uma diferença. É preciso gastar um tempo nisso para encontrar o caminho e a forma de mostrar isso para quem conhece com uma outra configuração. Nesses dois anos em que a gente voltou a trabalhar, conseguiu chegar em um formato legal. Além de nós três, tem o Fábio Muniz, grande baterista e conhecedor de reggae, e o João Pompeo (teclado) também, que tocou com a Canamaré quando tinha 18 anos, em Porto Alegre, nos nossos primeiros shows pela cidade. Estamos muito satisfeitos com nossa sonoridade, bem mais madura, e conseguindo expressar melhor o que a gente quer dizer. E os shows da tour de 21 anos são diferenciados, principalmente, por causa disso, da sonoridade e da forma de mostrar as canções.

Além da tour, pensam em alguma outra atividade para celebrar o aniversário?

Marcelo Banana — Além dos shows, está previsto para lançarmos nosso canal no YouTube em outubro. E ainda disponibilizar nosso primeiro CD, o mais conhecido pelo público, em todas as plataformas digitais. Também já estamos há um tempo empenhados, no estúdio, preparando em um monte de conteúdo legal de músicas conhecidas, com essa nova roupagem e sonoridade. Esse tem sido nosso foco. Estamos ansiosos para chegar em Porto Alegre, cidade maravilhosa, nossa segunda casa, onde temos muitos amigos. É um lugar que nos abraçou e ajudou a nos impulsionar para todo o Rio Grande do Sul. O show do dia 21 vai ser explosivo, para cantar junto com a galera.

Homero Pivotto Jr.

Jornalista e assessor de Imprensa 
(51) 98557-3136 
[email protected]

Deixe uma resposta