U2 fala de mortalidade e esperança em Songs of Experience

U2 no Morumbi
U2 no Morumbi

?Nada pode evitar que este seja o melhor dia de todos?, Bónus declara em ?Love Is All We Have Left?, mesmo no começo de Songs of Experience, que dá seqüência elogiado Songs of Innocence (2014). Mas a interpretação do cantor nos intriga por se mostrar ?com o pé no freio?: parece uma oração prudente ou um desejo frágil, suspenso sob o toque da guitarra de The Edge e a grave tensão baixo de Adam Clayton.

O cantor usa a bravata em ?Lights of Home?: ?Mais de um puxão eu nasço de novo?, ele canta, com o verso reforçado pela guitarra de blues, interpretada por The Edge e pelo ritmo de rock/hip-hop de Larry Mullen Jr. Na música, o cantor também reconhece a mortalidade: ?Eu não deveria estar aqui. Deve estar morto?, ele admite logo na primeira frase. Trata-Se de uma alusão a um acontecimento recente, que não foi divulgado em detalhes, mas que o guitarrista The Edge falou ter sido ?muito grave?.

Se Songs of Innocence a banda mais esperançosa do rock olhou energicamente para o passado, especificamente para a época em que eram sonhadores que vivem sob as raízes punk em Dublin dos anos 1980, o Songs of Experience representa uma outra realidade desses músicos que já atingiram a meia-idade. Eles já não têm todo o tempo do mundo.

Esta urgência ata e impulsiona o mosaico de Songs of Experience; o início de sinistro e hesitante em ?Love Is All We Have Left?; nascer do sol ?You?re the Best Thing About Me? e a apelação psicodélica em ?Summer of Love?, com alusões a uma Síria devastada. Da mesma forma que aconteceu em Songs of Innocence, a banda utiliza diversos produtores para dar mais cor ao trabalho. Entre eles está o sempre confiável Steve Lillywhite. Assim, o álbum também tem reflexos das coisas do passado. ?The Blackout? possui as contradições de Pop (1997), com noites de sedução trombando com o apocalipse; ?The Little Things That Give You Away? resgata ecos de The Joshua Tree (1987).

As mudanças de dinâmicas sonoras e de atmosferas emocionais causam um efeito cumulativo em ?Get Out of Your Own Way? e você ?O Red Flag Day?. São canções que detalham os ganhos, perdas e também falam de coisas que ficaram sem fazer. Cheia de guitarras metálicas, ?American Soul? é uma carta de agradecimento às raízes musicais norte-americanos que impulsionaram o U2 a seguir em frente. A gravação ainda traz a participação de Kendrick Lamar, em uma espécie de sermão cauteloso. Outras canções também falam de casa e da dívida que a banda tem com suas famílias e da fidelidade que todos dedicados à banda.

Songs of Experience termina como começa: com um sussurro. ?13 (There Is a Light)? também marca um retorno a inocência, repetindo o refrão já apresentado ?Song for Someone?, do álbum anterior. Mas se esta última era uma carta de amor para Lá, a esposa do cantor ?13?, na realidade, é uma renovação dos propósitos que Bono ainda tem na música, na arte de escrever canções e que, depois de tocar no palco. A experiência do U2 nos ensinou que cada nova canção da banda irlandesa ainda pode soar como o primeiro dia do resto de nossas vidas. Songs of Experience é o som deste tipo de inocência renovada.